
Cena 1. Externa: Imagens da cidade sendo sobrevoada.
Cena 2. Externa: Várias imagens de pessoas diferentes andando pra lá e pra cá, lugares movimentados, carros passando.
Cena 3. Interna: Dentro de um quarto, uma garota maquiada está sentada diante do espelho, escovando os cabelos compridos e cantando. Interrompe a música e fala diante do espelho.
MENINA
Essa voz que sai de minha garganta, eu não a reconheço. Às vezes tenho a sensação de que não é minha. Sinto-me espécie de fantoche ou autômato e minhas ações parecem estar previamente planejadas por alguém que não sei quem é. Minha imagem é quem sou e ela se limita a traços definidos no espaço que não demarcam minha essência. Essas palavras que lhes digo não são minhas, eu não tenho voz. Não sei o que me rege, mas deixo-me ser levada por esse desejo que parece meu desde sempre e, no entanto aparece diante de mim como inconcebível compreensão.
Cena 5. Outras imagens diversas de pessoas, catástrofes, entra-e-sai de lugares, pessoas chorando, pessoas sorrindo.
Cena 6. Interna: Um homem de meia idade, bigode e óculos em um escritório.
HOMEM
Em cada lugar que entro, assumo meu papel. Observo e assumo uma imagem ofuscante. Me adapto ao contrário, como um animal que muda de cor para combinar com as nuances do ambiente, mas meu esforço contrário me faz destoar de todo o resto. Sou como um camaleão invertido que não se camufla, não me envolvo. Não estabeleço ligações, nem meus pensamentos caóticos são capazes de ligarem-se. Minha lógica pertence ao caos.
Cena 7. Um rapaz magro, com olhar profundo e sério sentado em uma caixa preta.
RAPAZ
Eu a vejo a cada passo, a percorro, me entrego ao seu jogo sem preocupar-me em conhecer suas regras desleais. Eu sei – é assim. Mas a angústia de ser desde dentro dela estando preso em suas curvas labirínticas me faz inebriar-me, fazendo-me desejá-la ainda mais. E como um degenerado guardador de rebanhos, eu a violo e saio apalpando todos seus cantos e orifícios. Ela é meu templo e maldição oferecendo-me todo prazer orgíaco. Mas a cada contradição sou engolido por ela, cuspido a seu bel prazer, totalmente em pedaços, desmontado, partido e estilhaçado. Ao avistar meus restos no chão, um misto de desvanecimento e prazer, ao encontrar-me tão distante do que era me faz lembrar do árduo trabalho de rolar pedras até o alto de um monte e antes de chegar até o topo a decepção do retorno da mesma.
“Une passante”, talvez, essa seja a razão da minha obceção em que as pedras rolem tão incessantemente.
Cena 8. Imagem final da cidade colméia.