quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Um retorno em outras palavras

De súbito cessou a vida.

Henriqueta Lisboa

De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.


O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.


Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.


Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.


Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.


Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.


Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.


Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...


Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)


Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.


Publicado: A Face Lívida (1945)

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Plus Cidade (ou tentativa de esboço para roteiro cinematográfico)



Cena 1. Externa: Imagens da cidade sendo sobrevoada.

Cena 2. Externa: Várias imagens de pessoas diferentes andando pra lá e pra cá, lugares movimentados, carros passando.

Cena 3. Interna: Dentro de um quarto, uma garota maquiada está sentada diante do espelho, escovando os cabelos compridos e cantando. Interrompe a música e fala diante do espelho.

MENINA
Essa voz que sai de minha garganta, eu não a reconheço. Às vezes tenho a sensação de que não é minha. Sinto-me espécie de fantoche ou autômato e minhas ações parecem estar previamente planejadas por alguém que não sei quem é. Minha imagem é quem sou e ela se limita a traços definidos no espaço que não demarcam minha essência. Essas palavras que lhes digo não são minhas, eu não tenho voz. Não sei o que me rege, mas deixo-me ser levada por esse desejo que parece meu desde sempre e, no entanto aparece diante de mim como inconcebível compreensão.

Cena 5. Outras imagens diversas de pessoas, catástrofes, entra-e-sai de lugares, pessoas chorando, pessoas sorrindo.

Cena 6. Interna: Um homem de meia idade, bigode e óculos em um escritório.

HOMEM

Em cada lugar que entro, assumo meu papel. Observo e assumo uma imagem ofuscante. Me adapto ao contrário, como um animal que muda de cor para combinar com as nuances do ambiente, mas meu esforço contrário me faz destoar de todo o resto. Sou como um camaleão invertido que não se camufla, não me envolvo. Não estabeleço ligações, nem meus pensamentos caóticos são capazes de ligarem-se. Minha lógica pertence ao caos.

Cena 7. Um rapaz magro, com olhar profundo e sério sentado em uma caixa preta.

RAPAZ

Eu a vejo a cada passo, a percorro, me entrego ao seu jogo sem preocupar-me em conhecer suas regras desleais. Eu sei – é assim. Mas a angústia de ser desde dentro dela estando preso em suas curvas labirínticas me faz inebriar-me, fazendo-me desejá-la ainda mais. E como um degenerado guardador de rebanhos, eu a violo e saio apalpando todos seus cantos e orifícios. Ela é meu templo e maldição oferecendo-me todo prazer orgíaco. Mas a cada contradição sou engolido por ela, cuspido a seu bel prazer, totalmente em pedaços, desmontado, partido e estilhaçado. Ao avistar meus restos no chão, um misto de desvanecimento e prazer, ao encontrar-me tão distante do que era me faz lembrar do árduo trabalho de rolar pedras até o alto de um monte e antes de chegar até o topo a decepção do retorno da mesma.

Une passante”, talvez, essa seja a razão da minha obceção em que as pedras rolem tão incessantemente.

Cena 8. Imagem final da cidade colméia.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Cripta


Sorrindo, linda e feliz, ela queria me ver. Fui, ouvi vozes dentro de mim que diziam: "vale a pena arriscar". Na vida sempre se aventura mesmo quando o resultado final já é o esperado. Fui, aproveitando a chance de amar, de sentir uma euforia humana, desvelar as várias faces desenhadas umas por cima das outras em meu rosto. O que mais me chamou atenção naquele local foi a iluminação, um contraste claro escuro que em alguns momentos cintilava em partes pequenas do rosto, ou da mão e mechas de cabelo. Adorava esse jogo de olhar para as pessoas e ficar apreciando pequenas partes iluminadas que em alguns momentos sem me dar conta reapareciam escurecidos.

Ela olhava pro meu rosto, seu olhar profundo procurava pelo meu, ela odiava meu jeito de olhar, sempre me esquivando de suas profundezas, a órbita do meu olhar é frenética e incessante, eles ficam percorrendo e vagueando, não sei se oblíquos, talvez oblíquos seja pretensão demais. Mas de um detalhe tenho certeza, ela não gostava do ciganear dos meus olhos e os seguia insistentemente desejando talvez capturá-los. Eu não estava me importando, queria mesmo fazê-la sofrer, mas não de um sofrimento brutal, queria provocar algo parecido a uma aflição ansiosa. Eu gostava disso, pensar que alguém sofre só por meu olhar. Eu a expliquei várias vezes, não gosto de olhar no olho, acho invasivo, irritante. Eu sou dona do meu olhar, talvez não do meu corpo, pensamentos, sou dona apenas dos movimentos elípticos que ele realiza. Em mantê-los estáticos nunca pensei. Bebemos duas doses de Bacardi com coca-cola e saímos daquele bar. Ela me falava sobre o último filme que havia visto quando íamos nos dirigindo em direção à sua casa. Entramos, não deveríamos, mas misturamos as bebidas, vinho chileno. Em um momento repentino ela põe as mãos em meus ombros e me olha nos olhos, eu os desvio, ela segura meu rosto e me beija na boca, começa beijando no canto dos lábios, depois enfia a língua profundamente na cavidade, nem tudo que ela fazia comigo eu gostava, mas adorava quando me lambia os lábios começando bem devagar e depois arrebatando minha língua chupando-a como um bebê que suga os seios da mãe. Meus olhos permaneciam abertos, para ela era uma espécie de traição, queria meus olhos fechados. Não, o problema não era que existissem outras pessoas e que eu pudesse olhá-las, era o meu olho aberto apenas. Ela dizia que parecia falsidade, que eu não me entregava, não queria me oferecer completamente. Odiava aquilo, talvez a solução fosse perfurar meus próprios olhos e eu jamais a veria novamente. Comentei isso com ela sarcasticamente em uma de nossas brigas. Por isso, eu fechava os olhos, porém mantendo uma sutil fresta entre as pálpebras. Turva, sombria e labiríntica era o que eu era. Infelizmente ela não me desvendou por completo, no meu jogo não facilito, é o método. O que parecia impossível descobrir, estava ali, na frente dela. O mapa era apenas a trajetória do meu olhar.

Impressões Desalinhadas


Nenhuma função do livrocorpo é singular
Se um serviço múltiplo puder ser realizado.
Assim o ar da inspiração
Divide a mesma passagem
Com sais, palavras,
Sentenças, adoçantes, parágrafos
Todos desmoronam em agitação nas páginas ruminantes,
Para jazer em fileiras seriadas como hastes de arroz
Num campo, ou os pontos da costura num tatami,
Pacientemente aguardando irrigação
Por água ou visão
Mesmo que em mil anos não surja um leitor
.”

(The Pillow Book, Peter Greenaway)


Deitar-se na cama não parece nada mais inescrupuloso que andar por aí com pensamentos originários do caos. Olhando para baixo, o universo parece mais perceptível que olhando para o horizonte. Formigas trabalham porque não possuem outros afazeres. Quando a demanda é humana, trabalha-se porque muitas coisas precisam ser feitas. Ele olha para mim como se fossem tantas e ninguém ao mesmo tempo. Mostro-me assim, de outra forma não seria possível. Queria criar uma história infame em que ninguém pudesse ser perdoado. Mas o absinto do diário íntimo me persegue. Deveria absorvê-lo na pele e quando quisesse ver-me um pouco mais a arrancaria sem hesitação, mas mesmo o que se fala de si são torpezas irrelevantes, porque se serve para algo presta apenas para transmitir uma imagem corrompida do que se pensa que é. Quem diria que serviria para acalmar os ânimos e relembrar momentos nostálgicos, emite insanidades e palavras imersas em total cegueira. Queria mesmo escrever ebriedades, loucuras insanas, dessas de onde saem os autênticos eus, mensagens divinas misturadas a vexames espetaculares. Quando se é ridículo todos olham percebendo um objeto incauto. Isso é tornar-se alguém? Não passa de um ingênuo desvario. Lições de lógica tradicional ostentam o sem sentido mais discutível. Melhor seria dormir acordada pra sempre, sorrir dormindo para os outros na rua. Entorpecidamente viva como nuvens sob os pés. Nada! Perdida nunca, quadrado sem portas não oferece alternativa, resta-se e dorme. Um dia vi uma imagem no espelho quis esquecer quem era para ver melhor, decepção. Só via olheiras e tímidos pés de galinha frutos talvez de uma força mais impetuosa do que eu, a da gravidade ou a própria lei da vadiagem. Encarar a eternidade é preciso, não viver. Acredito em outras vidas que me lembrem que eu existo. Talvez não passe da necessidade de mais um pouco de dor. Já que estando presa tenho liberdade para esquecer que a liberdade é muito mais do que eu possa querer ter. Escrever desse modo não é natural, totalmente insano. Portanto viva às cartas protocolares e aos escritos burocratas. Nesse mundo non sense o sentido é obtusamente circular.


Mel


Acordou de um sono que já não poderia, talvez porque sentisse que a cada vez não sabia se em sonho ou realidade acordava. Só percebeu um pedaço de sol na ponta de seus pés que transmitia ao restante do corpo um calor desumano. Olhou para o relógio e percebeu que podia começar a arrumar-se sem temer chegar cedo demais ao trabalho. Vestiu o uniforme como sempre, entretanto antes o cheirou percebendo que aquele odor parecia não ser o seu. Há muito tempo sentia-se outra através de pequenas pistas. Pensou em loucura, alucinação ou excesso de literatura. Mas poderia jurar que no dia anterior, enquanto tomava seu habitual chá verde havia encontrado uma velha roupa nunca usada em cima da mesa, um vestido de lembranças não oportunas. Sabia que era impossível que ele fosse parar ali sem que ela mesma o tivesse posto, pois ninguém entrava ali há anos, preferia privar as pessoas de entrar em sua casa, afinal nem mesmo ela sentia-se segura ali. Considerava então a casa um templo labirinto que só a ela pertencia. Não deu importância ao fato, afinal estava se preparando para um novo dia que invariavelmente pareceria-se com os outros. Pensou até em queimar aquela roupa que já nem cabia mais. Saiu. A rua parecia dar-lhe uma ensurdecedora vaia, quantos sons ela não ouvia, quantas sensações ela não sentia. Pensava naquilo e sua cabeça colméia produzia um mel que às vezes confundia-se com as ceras dos ouvidos. Ela chegou ao trabalho toda doce, deu bom dia para todos, e sentou-se em sua cadeira tão levemente demorando alguns segundos. Pegou as correspondências e percebeu que as manchava com o melado que escorria de seus poros. Encontrou uma toalha em sua gaveta e tentou limpar um pouco, não encontrou os relatórios do dia anterior, procurou em outros lugares, a mancha melada espalhava-se por todo chão. Abriu a porta e perguntou à outra funcionaria se havia mexido em sua gaveta, já que os papéis que deveriam ser enviados para a outra filial não estavam mais lá. Ao verificar ligando para a outra agência percebeu que os papéis já haviam sido entregues e por ela mesma.Achou que não poderia ser, perguntou se foi por correio que enviara, não, não foi. Ela mesma de corpo inteiro foi até lá e entregou os papéis. Existem coisas realmente inexplicáveis na vida, nesse caso, achou melhor ignorar.

Recomeçou seu trabalho, gotas de mel continuavam escorrendo de seus punhos, manchava toda mesa e a obrigavam a parar para limpar, pensava em tudo que envolvia seu trabalho, pensava em quem ela era, pensava no sentido de tudo aquilo. Pensou na cidade que não é nada para quem está dentro dela, mas que fazia cócegas em seus pés mesmo calçados. Queria pensar mais, mas sentiu fome, saiu de seu cercado e convidou outra para almoçar, a outra não entendeu já que há algum tempo atrás ambas foram almoçar juntas. Não se lembrava o que comera, aliás, sentia fome. Novamente ignorou aquele incidente. Começou a datilografar alguns ofícios quando sentiu em sua orelha zumbidos de abelhas que sobrevoavam sua cabeça e algumas até mesmo pousavam. Tentou várias vezes sem sucesso espantá-las, mas estavam em sua cabeça como se ali fosse sua própria casa. Sentiu-se mal, desgovernada, seus pés saíram do chão e sua cabeça só mel. Foi para casa procurar o fio que a levaria ao sentido daquilo tudo. Encontrou sua casa outra, sem seu cheiro, sem seus traços, nada estava como havia deixado, nada. Simplesmente deitou-se em uma cama que já não sabia se era a mesma. Sonhou vários mundos, sonhou histórias que nunca poderia imaginar que estivessem ali em sua cabeça. Acordou, sentiu o pé quente, embora dormisse sem meias e o cobertor curto não cobrisse seus pés, sentiu o cheiro de incenso, o aroma era de mel.